domingo, 20 de maio de 2012

Entre o que vejo e o que digo



Arte: Edward Henry Potthast
Along the Mystic River

"Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.

Desliza
entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que esqueço.

Não é um dizer:
é um fazer.
É um fazer
que é um dizer.

A poesia
se diz e se ouve:
é real.
E, apenas digo
é real,
se dissipa.
Será assim mais real?

Ideia palpável,
palavra
impalpável:
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.

A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.

Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da idéia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem. "

Octavio Paz
Tradução: Anderson Braga Horta

5 comentários:

  1. Os olhos falam,
    as palavras olham,
    os olhares pensam.

    Bom domingo Elenir.

    beijooo.

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  2. Olá, Elenir!
    Belíssimo O. Paz. Creio tratar-se da própria tradução literal da "poiesis" grega: "fazer", "fazer ser". Nesse sentido, Deus era poeta, pois com o Verbo...
    Abraço.
    Gilson.

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  3. Adorei,seu blog se puder da uma visita no meu >.<

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  4. Precioso o arte da poesia. Beijos!

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