domingo, 3 de abril de 2011

Loucura

Arte: Rafal Olbinski


Como me tornei louco

Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas
– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:
“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
“É um louco!”
Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:
“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós.

Gibran Khalil Gibran

8 comentários:

  1. a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido,
    pois aquele que nos compreende
    escraviza alguma coisa em nós.
    Uauuuuu lindo!
    Nunca seremos apagados! Pois o que escrevemos é eterno... Mesmo que seja apenas dentro de nós mesmos

    ResponderExcluir
  2. A vida é um baile de máscaras... se vc quiser. Se não quiser, é louco!

    Vida louca! hahaha

    Beijo!

    ResponderExcluir
  3. Absolutamente veraz.
    Por minha casa, e já por muitos anos, ando amontoando livros. Alguns eu compro, outros me são presenteados, e ainda outros apanho no lixo. Isto não tem feito de mim um sábio e nem acho que estou cada dia mais culto - mas granjeei a fama de estar ficando doido.Curioso, tem gente que coleciona cartões de telefone e fica famoso.

    ResponderExcluir
  4. Olá Elenir

    Fico com o Edu, não há mais o que acrescentar.

    Um grande abraço e obrigado pelo comentário em Momentos de Reflexão.

    ResponderExcluir
  5. A verdadeira liberdade, penso, não é desfazer-se das máscaras mas, saber usá-las consciente e convenientemente. Mesmo porque, alguém que as descarte totalmente, de tão livre, em meio às meias e/ou falsas liberdades, corre deveras o risco de ser considerado um louco, quando não um bode expiatório.

    ResponderExcluir
  6. Oi Elenir
    Fantástico. Não conhecia o texto. Realmente só somos livres, quando tiramos as mascaras e assumimos nossa loucura.
    Bjux

    ResponderExcluir
  7. Sim, tirarmos as máscaras e assumirmos nossas loucuras... Quantos de nós o fazem?
    Quantos de nós tiram a máscara da hipocrisia, do preconceito, do machismo, da xenofobia, da homofobia, de todas as ''ias'' que nos matam todos os dias um pouco como seres humanos? Todos leram o texto, belíssimo por sinal... todos aplaudem o texto, e quantos derrubaram as máscaras depois do ponto final?
    O ato em si é mais difícil do que preencher uma página de cometário.
    Parabéns pelo post.
    Beijos, beijos.

    ResponderExcluir
  8. Este texto de Gibran me fez analisar quantas máscaras ainda uso.Com certeza devo usar algumas,pois é bem mais fácil viver com elas.Torno-me louca quando desfaço algumas delas pelos trechos da vida.Como fica difícil sentir a nudez,na ausência da máscara.Porém a loucura às vezes mesmo difícil nos eleva ao aprendizado da vida.Ficamos mais civilizados sem ela,no entanto pagamos um preço altíssimo,pois para muitos seremos loucos dentro da loucura de uma verdade,só nossa.Viva a Loucura.Sou louco e livre! Um grande abraço querida prima.

    ResponderExcluir