sábado, 28 de fevereiro de 2015

Vim



Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.

Paulo Leminski

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Procura



Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade

em "A palavra mágica"


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Todos têm oceanos para cruzar

Imagem: Diego Frazão Torquato tocando violino no funeral do seu professor.



"Todas as coisas que nunca disse por tanto tempo, 
olhe bem, estão em meus olhos. 
Todos têm oceanos para cruzar, 
desde que tenham o coração para fazê-lo. 
É impulsivo? 
Talvez. 
Mas o que os sonhos sabem sobre limites?"
Amélia Earhart​




Amélia Earhart foi uma celebridade. Além de uma das pioneiras da aviação, detentora de vários recordes (primeira mulher a cruzar o Atlântico pilotando sozinha o seu avião, em 1932), foi escritora e a sua vida inspirou outros escritores, foi tema de  filmes e canções. O mistério em torno do seu desaparecimento tornou-a num dos grandes mitos do século.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ser



Verbo Ser

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


Feliz 2014!

Arte: Vladimir kush

Que você possa ter muitos sonhos,
Que se transformem em belos projetos,
E ao realizá-los sinta prazer e alegria,
Que estes sentimentos brilhem e
 seus reflexos  
Fertilizem outros sonhos!


E assim chegar e partir



Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar


Milton Nascimento

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Diamante puro!



"E se o que tanto buscas só existe
em tua límpida loucura
- que importa? -  isso 
exatamente isso 
é o teu diamante mais puro!"

Mario Quintana

domingo, 29 de dezembro de 2013

Silêncios



Eu nasci para estar calado.
Minha única vocação é o silêncio.
Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios.
Escrevo bem, silêncios, no plural.
Sim, porque não há um único silêncio.
E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado.
Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude.
Eu era um afinador de silêncios.

Mia Couto

sábado, 28 de dezembro de 2013



"Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu".

Mário Quintana

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Cena sem ensaio

Imagem: Ann Mei

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.

E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

Wislawa Szymborska

(tradução de Regina Przybycien)

domingo, 6 de outubro de 2013


Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas,
Prefiro a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.
Opto pela loucura, como um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.
Desculpem, mas devo dizer:
Eu quero o delírio.

Lya Luft