terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Todos têm oceanos para cruzar

Imagem: Diego Frazão Torquato tocando violino no funeral do seu professor.



"Todas as coisas que nunca disse por tanto tempo, 
olhe bem, estão em meus olhos. 
Todos têm oceanos para cruzar, 
desde que tenham o coração para fazê-lo. 
É impulsivo? 
Talvez. 
Mas o que os sonhos sabem sobre limites?"
Amélia Earhart​




Amélia Earhart foi uma celebridade. Além de uma das pioneiras da aviação, detentora de vários recordes (primeira mulher a cruzar o Atlântico pilotando sozinha o seu avião, em 1932), foi escritora e a sua vida inspirou outros escritores, foi tema de  filmes e canções. O mistério em torno do seu desaparecimento tornou-a num dos grandes mitos do século.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ser



Verbo Ser

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


Feliz 2014!

Arte: Vladimir kush

Que você possa ter muitos sonhos,
Que se transformem em belos projetos,
E ao realizá-los sinta prazer e alegria,
Que estes sentimentos brilhem e
 seus reflexos  
Fertilizem outros sonhos!


E assim chegar e partir



Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar


Milton Nascimento

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Diamante puro!



"E se o que tanto buscas só existe
em tua límpida loucura
- que importa? -  isso 
exatamente isso 
é o teu diamante mais puro!"

Mario Quintana

domingo, 29 de dezembro de 2013

Silêncios



Eu nasci para estar calado.
Minha única vocação é o silêncio.
Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios.
Escrevo bem, silêncios, no plural.
Sim, porque não há um único silêncio.
E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado.
Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude.
Eu era um afinador de silêncios.

Mia Couto

sábado, 28 de dezembro de 2013



"Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu".

Mário Quintana

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Cena sem ensaio

Imagem: Ann Mei

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.

E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

Wislawa Szymborska

(tradução de Regina Przybycien)

domingo, 6 de outubro de 2013


Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas,
Prefiro a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.
Opto pela loucura, como um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.
Desculpem, mas devo dizer:
Eu quero o delírio.

Lya Luft

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Fui sabendo de mim



Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia
pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei
eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto,
em "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quinta-feira, 25 de julho de 2013

E aqui estou à espera


E aqui estou à espera
- com este destino
de dar sombra aos muros
Mas à espera de quê?
Que o despenhar no abismo
me crie enfim asas?
 José Gomes Ferreira

domingo, 21 de julho de 2013

Como me tornei louco


Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas
– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:
“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
“É um louco!”
Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei:
“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós. 

Gibran Khalil Gibran


Erguem-se muros


Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.
E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.
E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.
Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.
Konstantinos Kaváfis

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ponte da vida


 

... “Ninguém pode construir para ti a ponte sobre a qual precisamente tu tens de passar sobre o rio da vida, ninguém além de ti mesmo.
Decerto que há inumeráveis atalhos e pontes e semideuses que te querem carregar através do rio; mas apenas ao preço de ti mesmo; tu te darias em penhor e te perderias.
Há no mundo um único caminho que ninguém pode trilhar além de ti: para onde conduz ele? Não perguntes, prossegue.
Um homem jamais se eleva mais alto do que quando não sabe para onde seu caminho ainda o pode conduzir.
O que, até agora, verdadeiramente amaste, o que atraiu tua alma, o que a dominou e ao mesmo tempo a felicitou?
Coloca diante de ti a série desse venerados objetos, e talvez eles te proporcionem, por sua essência e sucessão, uma lei fundamental própria de ti mesmo.
Compara esses objetos, vê como um complementa, alarga, sobrepuja, transfigura o outro, como eles formam uma escada, sobre a qual tu agora te elevaste para ti mesmo; pois tua verdadeira essência não jaz profundamente oculta em ti, mas imensamente acima de ti…”
 


Friedrich Nietzsche (1844-1900)
em “Schopenhauer como Educador”

domingo, 14 de julho de 2013

Desafio

Imagem: Adolfo Payes
“Nenhuma luta haverá jamais de me embrutecer, nenhum cotidiano será tão pesado a ponto de me esmagar, nenhuma carga me fará baixar a cabeça. Quero ser diferente. Eu sou. E se não for, me farei.”

Caio Fernando Abreu